O bebê não precisa ser acelerado: ele precisa de oportunidades para desenvolver seu corpo e seu cérebro
- há 23 horas
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O desenvolvimento do bebê acontece por meio de uma extraordinária interação entre corpo, cérebro, emoções, ambiente e relações.
Desde os primeiros meses de vida, o bebê está construindo seu repertório motor a partir das experiências que vivencia. Cada movimento que realiza — olhar, alcançar, rolar, apoiar-se, mudar de posição, deslocar-se, equilibrar-se oferece ao cérebro informações importantes para organizar o corpo e compreender o mundo ao seu redor.
Por isso, quando falamos em desenvolvimento motor, não estamos falando apenas de ensinar um bebê a sentar, engatinhar ou andar. Estamos falando de criar condições para que ele descubra o que seu próprio corpo é capaz de fazer.
E isso muda completamente a forma como devemos estimular uma criança.
Não precisamos antecipar. Precisamos oferecer oportunidades.
É muito comum ouvir dos pais:
“Quando meu filho vai andar?”
A expectativa pela marcha faz com que, muitas vezes, o adulto coloque o bebê em pé, segure suas mãos para fazê-lo caminhar ou permaneça constantemente conduzindo seus movimentos.
Mas desenvolvimento não acontece pela antecipação de habilidades.
O bebê precisa primeiro construir as bases que darão sustentação às próximas conquistas. Controle da cabeça, organização do tronco, mobilidade, força, equilíbrio, coordenação, transferência de peso, percepção corporal e capacidade de ajustar o movimento são algumas das experiências que vão sendo integradas progressivamente.
Quando oferecemos ao bebê espaço, tempo e segurança para explorar, ele recebe algo muito mais importante do que uma habilidade pronta: a oportunidade de descobrir como resolver um desafio motor. E cada tentativa também é uma experiência para o cérebro.
E se meu filho não engatinhou?
Essa é outra dúvida muito frequente: “Meu filho não engatinhou. Isso pode trazer algum problema?”
Não necessariamente. Nem toda criança passa pelo engatinhar clássico. Algumas se deslocam de outras maneiras, e isso, isoladamente, não significa que exista um problema no desenvolvimento. Porém, é importante estimular o movimento correto, pois pode influenciar no desenvolvimento da postura. A boa notícia é que essa fase pode ser vivenciada de forma lúdica durante brincadeira na educação infantil.
O que precisamos observar é o conjunto do desenvolvimento.
Como essa criança explora o ambiente?
Ela consegue mudar de posição?
Utiliza os dois lados do corpo?
Apresenta boa mobilidade?
Consegue sustentar e organizar o próprio corpo?
Manipula objetos?
Busca diferentes possibilidades de movimento?
Apresenta equilíbrio compatível com sua fase?
Consegue adaptar seus movimentos diante de novos desafios?
Interage bem com cuidadores primários e outras crianças?
Mais importante do que perguntar apenas “ela engatinhou?”, precisamos perguntar:
“Que experiências motoras ela teve e como seu corpo está se organizando?”
"Essas experiências foram suficiente para o seu desenvolvimento atual?
É aí que a psicomotricidade ganha um papel preventivo e tão importante.
O movimento também alimenta o desenvolvimento cerebral

Hoje sabemos que o desenvolvimento motor não pode ser separado do desenvolvimento cognitivo e emocional. O bebê aprende por meio do corpo. Ao alcançar um brinquedo, por exemplo, ele precisa perceber onde o objeto está, direcionar o olhar, organizar o movimento do braço, ajustar a postura, controlar a força e lidar com o resultado de sua tentativa. Parece apenas uma brincadeira. Mas, para o cérebro, existe uma complexa integração entre percepção, atenção, planejamento motor, coordenação, equilíbrio, propriocepção e aprendizagem. É por isso que não considero o movimento apenas como uma etapa física do desenvolvimento.
O movimento é uma das formas pelas quais o cérebro aprende a organizar a experiência.
O tônus: a base para a organização do movimento
O tônus muscular está presente desde o início da vida e participa da organização postural e do movimento. Ele não deve ser entendido apenas como “força muscular”. O tônus está relacionado à capacidade do corpo de sustentar posições, ajustar-se às diferentes situações e preparar-se para a ação. À medida que o bebê amadurece, o controle postural vai se tornando mais organizado, permitindo maior liberdade para explorar o ambiente. Primeiro, ele conquista maior controle da cabeça. Depois, amplia suas possibilidades de movimentação do tronco. Passa a rolar, alcançar, apoiar-se, mudar de posição, sentar, deslocar-se e, posteriormente, experimentar a verticalidade e a marcha. Essas aquisições não acontecem de maneira isolada. Uma conquista oferece novas possibilidades para a próxima.
Da cabeça aos pés: o corpo se organiza para agir
No trabalho psicomotor, podemos observar essa construção de maneira global:
1. Controle da cabeça e do pescoço: O bebê começa a organizar o eixo corporal e ampliar sua capacidade de orientar o olhar e interagir com o ambiente.
2. Rolar e explorar diferentes posições: O corpo começa a experimentar mudanças de orientação e transferência de peso.
3. Rastejar e deslocar-se: O bebê amplia sua mobilidade, coordenação e percepção espacial.
4. Sentar e liberar as mãos: O controle do tronco permite maior liberdade para manipular objetos e explorar.
5. Engatinhar ou experimentar outras formas de deslocamento: A criança amplia a integração entre diferentes segmentos corporais e sua relação com o espaço.
6. Ficar em pé e caminhar: A verticalidade exige novas estratégias de equilíbrio, controle postural, transferência de peso e organização espacial.
Mas existe algo muito importante: essa sequência não é uma receita rígida.
Cada criança apresenta um ritmo, uma história corporal e experiências diferentes. O nosso papel não é fazer a criança cumprir uma lista de movimentos. É proporcionar experiências que favoreçam a construção de um repertório motor rico e funcional.
E onde entra a piscina?
A água pode ser um ambiente extremamente rico para o desenvolvimento psicomotor do bebê.
Na piscina, o corpo encontra uma condição diferente daquela experimentada no solo. A água oferece resistência, sustentação e possibilidades de movimento que permitem à criança experimentar diferentes ajustes corporais.
Por meio de atividades adequadas à idade e ao nível de desenvolvimento, podemos favorecer experiências relacionadas à:
percepção corporal;
equilíbrio;
orientação espacial;
coordenação;
controle postural;
dissociação de movimentos;
ajustes tônicos;
confiança corporal;
exploração sensorial;
interação e vínculo com o adulto.
Mas a piscina não substitui as experiências no solo. Ela complementa.
É justamente a possibilidade de experimentar diferentes ambientes e desafios que amplia o repertório da criança.
E fora da piscina?
No ambiente terrestre, o bebê também precisa ter oportunidades de explorar.
Brincar no chão, alcançar objetos, passar por diferentes posições, explorar texturas, carregar, empurrar, puxar, deslocar-se, subir, descer e experimentar diferentes formas de movimento são experiências que podem ser planejadas de acordo com cada fase do desenvolvimento.
Não precisamos transformar a infância em treinamento. Precisamos transformar o ambiente em uma oportunidade de descoberta.
Uma caixa pode virar um obstáculo.
Uma almofada pode provocar uma mudança de apoio.
Um brinquedo colocado um pouco mais distante pode estimular uma tentativa de deslocamento.
Uma brincadeira compartilhada pode favorecer atenção, comunicação, vínculo e regulação.
É brincando que a criança experimenta possibilidades.
O adulto não precisa fazer pelo bebê. Precisa estar disponível para ele.
Existe uma diferença enorme entre estimular e conduzir o desenvolvimento.
Estimular é criar condições. Conduzir excessivamente é realizar pela criança aquilo que ela ainda está tentando descobrir. Quando colocamos o bebê em posições que ele ainda não consegue assumir sozinho, podemos até produzir uma postura momentânea, mas isso não significa que ele tenha construído o controle necessário para chegar até ela.
Por isso, mais importante do que “ensinar” o bebê a andar é oferecer experiências que permitam que ele desenvolva as bases necessárias para conquistar sua própria marcha. Não queremos apenas que a criança faça. Queremos que ela aprenda a organizar o próprio corpo para fazer.
Observe antes de comparar
Cada criança tem seu próprio percurso. Por isso, famílias não devem comparar bebês apenas pela idade em que começaram a sentar, engatinhar ou andar. O olhar precisa ser muito mais amplo. Observe como a criança brinca, como se movimenta, como utiliza o corpo, como reage aos desafios, como interage com as pessoas e como explora o ambiente. E, diante de dúvidas ou quando algo parecer diferente no desenvolvimento, conversar precocemente com o pediatra e, quando necessário, buscar profissionais especializados pode fazer toda a diferença.
A intervenção preventiva não significa esperar existir um problema. Significa olhar para o desenvolvimento antes que uma dificuldade se torne maior.
O desenvolvimento não precisa ser acelerado. Precisa ser vivido.
Hoje, quando trabalho com psicomotricidade, seja na piscina ou em atividades motoras fora dela, meu olhar não está apenas na habilidade que a criança já conquistou. Está também naquilo que seu corpo está tentando construir. Porque cada movimento traz uma informação. Cada tentativa produz uma experiência.
Cada brincadeira pode gerar uma nova aprendizagem. E quando corpo, cérebro, emoção, ambiente e vínculo trabalham juntos, estamos oferecendo à criança muito mais do que estímulos motores.
Estamos oferecendo experiências para construir autonomia, segurança e possibilidades de aprender.
Não acelere o desenvolvimento do seu bebê. Prepare o ambiente, esteja presente, brinque, observe e permita que ele descubra o próprio corpo. Porque antes de correr, pular, escrever ou aprender tantas outras coisas, a criança precisa primeiro sentir, experimentar e organizar o próprio corpo.
Confira o vídeo ao lado que está no meu canal do Youtube uma pequena amostra de exercícios que podemos fazer com o bebê em casa. Algumas dicas de exercícios para fazer com os bebês no primeiro ano de vida. Agora que quiser um conteúdo mais aprofundado no tema indico o ebook que escrevi com colegas parceiros especialistas da área da saúde da mulher e infantil. "Do ventre aos primeiros passos: um guia sobre cuidados maternos e o desenvolvimento do bebê."
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Até próxima!
Abç,
Evelyn de Paula Pereira
Profa. Ed. Física|Psicomotricista
Especialista na primeira infância
Criadora do método corpo inteligente (MCI)
Referência de base:
LE BOULCH, Jean. O desenvolvimento psicomotor: do nascimento aos 6 anos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982.
Para uma abordagem contemporânea, o tema também pode ser relacionado aos estudos atuais sobre desenvolvimento motor, aprendizagem motora, integração sensorial, neuroplasticidade e interação entre movimento, cognição e ambiente.






















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