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O bebê não precisa ser acelerado: ele precisa de oportunidades para desenvolver seu corpo e seu cérebro

  • há 23 horas
  • 7 min de leitura

Imagem do bebê realizando sequência do rolamento
Imagem do bebê realizando sequência do rolamento

O desenvolvimento do bebê acontece por meio de uma extraordinária interação entre corpo, cérebro, emoções, ambiente e relações.


Desde os primeiros meses de vida, o bebê está construindo seu repertório motor a partir das experiências que vivencia. Cada movimento que realiza — olhar, alcançar, rolar, apoiar-se, mudar de posição, deslocar-se, equilibrar-se oferece ao cérebro informações importantes para organizar o corpo e compreender o mundo ao seu redor.


Por isso, quando falamos em desenvolvimento motor, não estamos falando apenas de ensinar um bebê a sentar, engatinhar ou andar. Estamos falando de criar condições para que ele descubra o que seu próprio corpo é capaz de fazer.


E isso muda completamente a forma como devemos estimular uma criança.


Não precisamos antecipar. Precisamos oferecer oportunidades.

É muito comum ouvir dos pais:

“Quando meu filho vai andar?”


A expectativa pela marcha faz com que, muitas vezes, o adulto coloque o bebê em pé, segure suas mãos para fazê-lo caminhar ou permaneça constantemente conduzindo seus movimentos.

Mas desenvolvimento não acontece pela antecipação de habilidades.


O bebê precisa primeiro construir as bases que darão sustentação às próximas conquistas. Controle da cabeça, organização do tronco, mobilidade, força, equilíbrio, coordenação, transferência de peso, percepção corporal e capacidade de ajustar o movimento são algumas das experiências que vão sendo integradas progressivamente.


Quando oferecemos ao bebê espaço, tempo e segurança para explorar, ele recebe algo muito mais importante do que uma habilidade pronta: a oportunidade de descobrir como resolver um desafio motor. E cada tentativa também é uma experiência para o cérebro.


E se meu filho não engatinhou?

Essa é outra dúvida muito frequente: “Meu filho não engatinhou. Isso pode trazer algum problema?”


Não necessariamente. Nem toda criança passa pelo engatinhar clássico. Algumas se deslocam de outras maneiras, e isso, isoladamente, não significa que exista um problema no desenvolvimento. Porém, é importante estimular o movimento correto, pois pode influenciar no desenvolvimento da postura. A boa notícia é que essa fase pode ser vivenciada de forma lúdica durante brincadeira na educação infantil.


O que precisamos observar é o conjunto do desenvolvimento.

  • Como essa criança explora o ambiente?

  • Ela consegue mudar de posição?

  • Utiliza os dois lados do corpo?

  • Apresenta boa mobilidade?

  • Consegue sustentar e organizar o próprio corpo?

  • Manipula objetos?

  • Busca diferentes possibilidades de movimento?

  • Apresenta equilíbrio compatível com sua fase?

  • Consegue adaptar seus movimentos diante de novos desafios?

  • Interage bem com cuidadores primários e outras crianças?


Mais importante do que perguntar apenas “ela engatinhou?”, precisamos perguntar:

“Que experiências motoras ela teve e como seu corpo está se organizando?”

"Essas experiências foram suficiente para o seu desenvolvimento atual?


É aí que a psicomotricidade ganha um papel preventivo e tão importante.

O movimento também alimenta o desenvolvimento cerebral

Bebê buscando objeto e engatinhando apenas com apoio adequado com lado esquerdo. É preciso que o adulto corrija a postura do bebê para garantir um desenvolvimento postural equilibrado de ambos os lados do corpo.
Bebê buscando objeto e engatinhando apenas com apoio adequado com lado esquerdo. É preciso que o adulto corrija a postura do bebê para garantir um desenvolvimento postural equilibrado de ambos os lados do corpo.

Hoje sabemos que o desenvolvimento motor não pode ser separado do desenvolvimento cognitivo e emocional. O bebê aprende por meio do corpo. Ao alcançar um brinquedo, por exemplo, ele precisa perceber onde o objeto está, direcionar o olhar, organizar o movimento do braço, ajustar a postura, controlar a força e lidar com o resultado de sua tentativa. Parece apenas uma brincadeira. Mas, para o cérebro, existe uma complexa integração entre percepção, atenção, planejamento motor, coordenação, equilíbrio, propriocepção e aprendizagem. É por isso que não considero o movimento apenas como uma etapa física do desenvolvimento.


O movimento é uma das formas pelas quais o cérebro aprende a organizar a experiência.

O tônus: a base para a organização do movimento

O tônus muscular está presente desde o início da vida e participa da organização postural e do movimento. Ele não deve ser entendido apenas como “força muscular”. O tônus está relacionado à capacidade do corpo de sustentar posições, ajustar-se às diferentes situações e preparar-se para a ação. À medida que o bebê amadurece, o controle postural vai se tornando mais organizado, permitindo maior liberdade para explorar o ambiente. Primeiro, ele conquista maior controle da cabeça. Depois, amplia suas possibilidades de movimentação do tronco. Passa a rolar, alcançar, apoiar-se, mudar de posição, sentar, deslocar-se e, posteriormente, experimentar a verticalidade e a marcha. Essas aquisições não acontecem de maneira isolada. Uma conquista oferece novas possibilidades para a próxima.


Da cabeça aos pés: o corpo se organiza para agir

No trabalho psicomotor, podemos observar essa construção de maneira global:

1. Controle da cabeça e do pescoço: O bebê começa a organizar o eixo corporal e ampliar sua capacidade de orientar o olhar e interagir com o ambiente.

2. Rolar e explorar diferentes posições: O corpo começa a experimentar mudanças de orientação e transferência de peso.

3. Rastejar e deslocar-se: O bebê amplia sua mobilidade, coordenação e percepção espacial.

4. Sentar e liberar as mãos: O controle do tronco permite maior liberdade para manipular objetos e explorar.

5. Engatinhar ou experimentar outras formas de deslocamento: A criança amplia a integração entre diferentes segmentos corporais e sua relação com o espaço.

6. Ficar em pé e caminhar: A verticalidade exige novas estratégias de equilíbrio, controle postural, transferência de peso e organização espacial.


Mas existe algo muito importante: essa sequência não é uma receita rígida.

Cada criança apresenta um ritmo, uma história corporal e experiências diferentes. O nosso papel não é fazer a criança cumprir uma lista de movimentos. É proporcionar experiências que favoreçam a construção de um repertório motor rico e funcional.


E onde entra a piscina?

A água pode ser um ambiente extremamente rico para o desenvolvimento psicomotor do bebê.

Na piscina, o corpo encontra uma condição diferente daquela experimentada no solo. A água oferece resistência, sustentação e possibilidades de movimento que permitem à criança experimentar diferentes ajustes corporais.


Por meio de atividades adequadas à idade e ao nível de desenvolvimento, podemos favorecer experiências relacionadas à:

  • percepção corporal;

  • equilíbrio;

  • orientação espacial;

  • coordenação;

  • controle postural;

  • dissociação de movimentos;

  • ajustes tônicos;

  • confiança corporal;

  • exploração sensorial;

  • interação e vínculo com o adulto.


Mas a piscina não substitui as experiências no solo. Ela complementa.

É justamente a possibilidade de experimentar diferentes ambientes e desafios que amplia o repertório da criança.


E fora da piscina?

No ambiente terrestre, o bebê também precisa ter oportunidades de explorar.

Brincar no chão, alcançar objetos, passar por diferentes posições, explorar texturas, carregar, empurrar, puxar, deslocar-se, subir, descer e experimentar diferentes formas de movimento são experiências que podem ser planejadas de acordo com cada fase do desenvolvimento.

Não precisamos transformar a infância em treinamento. Precisamos transformar o ambiente em uma oportunidade de descoberta.

  • Uma caixa pode virar um obstáculo.

  • Uma almofada pode provocar uma mudança de apoio.

  • Um brinquedo colocado um pouco mais distante pode estimular uma tentativa de deslocamento.

  • Uma brincadeira compartilhada pode favorecer atenção, comunicação, vínculo e regulação.


É brincando que a criança experimenta possibilidades.


O adulto não precisa fazer pelo bebê. Precisa estar disponível para ele.

Existe uma diferença enorme entre estimular e conduzir o desenvolvimento.

Estimular é criar condições. Conduzir excessivamente é realizar pela criança aquilo que ela ainda está tentando descobrir. Quando colocamos o bebê em posições que ele ainda não consegue assumir sozinho, podemos até produzir uma postura momentânea, mas isso não significa que ele tenha construído o controle necessário para chegar até ela.


Por isso, mais importante do que “ensinar” o bebê a andar é oferecer experiências que permitam que ele desenvolva as bases necessárias para conquistar sua própria marcha. Não queremos apenas que a criança faça. Queremos que ela aprenda a organizar o próprio corpo para fazer.


Observe antes de comparar

Cada criança tem seu próprio percurso. Por isso, famílias não devem comparar bebês apenas pela idade em que começaram a sentar, engatinhar ou andar. O olhar precisa ser muito mais amplo. Observe como a criança brinca, como se movimenta, como utiliza o corpo, como reage aos desafios, como interage com as pessoas e como explora o ambiente. E, diante de dúvidas ou quando algo parecer diferente no desenvolvimento, conversar precocemente com o pediatra e, quando necessário, buscar profissionais especializados pode fazer toda a diferença.


A intervenção preventiva não significa esperar existir um problema. Significa olhar para o desenvolvimento antes que uma dificuldade se torne maior.


O desenvolvimento não precisa ser acelerado. Precisa ser vivido.

Hoje, quando trabalho com psicomotricidade, seja na piscina ou em atividades motoras fora dela, meu olhar não está apenas na habilidade que a criança já conquistou. Está também naquilo que seu corpo está tentando construir. Porque cada movimento traz uma informação. Cada tentativa produz uma experiência.

Cada brincadeira pode gerar uma nova aprendizagem. E quando corpo, cérebro, emoção, ambiente e vínculo trabalham juntos, estamos oferecendo à criança muito mais do que estímulos motores.



Estamos oferecendo experiências para construir autonomia, segurança e possibilidades de aprender.

Não acelere o desenvolvimento do seu bebê. Prepare o ambiente, esteja presente, brinque, observe e permita que ele descubra o próprio corpo. Porque antes de correr, pular, escrever ou aprender tantas outras coisas, a criança precisa primeiro sentir, experimentar e organizar o próprio corpo.


Confira o vídeo ao lado que está no meu canal do Youtube uma pequena amostra de exercícios que podemos fazer com o bebê em casa. Algumas dicas de exercícios para fazer com os bebês no primeiro ano de vida. Agora que quiser um conteúdo mais aprofundado no tema indico o ebook que escrevi com colegas parceiros especialistas da área da saúde da mulher e infantil. "Do ventre aos primeiros passos: um guia sobre cuidados maternos e o desenvolvimento do bebê."


Isso fez sentido para você ? Compartilhe com outras famílias!

Até próxima!

Abç,


Evelyn de Paula Pereira

Profa. Ed. Física|Psicomotricista

Especialista na primeira infância

Criadora do método corpo inteligente (MCI)




Referência de base:

LE BOULCH, Jean. O desenvolvimento psicomotor: do nascimento aos 6 anos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982.

Para uma abordagem contemporânea, o tema também pode ser relacionado aos estudos atuais sobre desenvolvimento motor, aprendizagem motora, integração sensorial, neuroplasticidade e interação entre movimento, cognição e ambiente.

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Evelyn de Paula Pereira
Profa. de Educação Física e Psicomotricista
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